Naquele tempo, no tempo em que os rádios eram clubes, havia na Sampaio e Pina um Director de Produção que se chamava Álvaro Jorge. Homem de coração de pedra, corte de cabelo muito curto, tinha o seu gabinete num outro número mas na mesma rua. Quer dizer: pela porta principal entrava-se para os estudios e serviços comerciais e por outra porta entrava-se para a contabilidade, discoteca, serviços de fiscalização e também para o gabinete do Álvaro Jorge. O Botelho Moniz bem queria partir uma parede para haver comunicação interna, mas o "galego", dono do prédio, a isso sempre se opôs. O gabinete do director de produção era sui generis: não havia janelas pelo que o ambiente era escuro, uma escuridão apenas quebrada por uma luz de um candeeiro que jorrava uma lingua de luz sobre a secretária do bom Álvaro Jorge. Era um ambiente que metia medo. Para o caso em questão, importa dizer que o Álvaro Jorge se zangava amiúde com os seus servidores. Por dá cá aquela palha, Álvaro Jorge afivelava a máscara nº5 e "andava de trombas" com quem não o tivesse satisfeito num qualquer trabalho.
Mas alguém "descobriu" a maneira de tirasr o bom Álvaro Jorge dos azeites. Acho, tenho a certeza que foi o Firmino Antunes, mais conhecido pelo "Mino". Qual a solução? Muito simples: uir ao gabinete escuro do sombrio director e pedir-lhe 100 escudos emprestados. Um dia fiz a experiência: ele andava esquerdo comigo, pedi licença para entrar no gabinete e logo a seguir pergunteri se me podia emprestar 100 escudos até ao fim do mês.
Apesar da fraca luz, vislumbrei um sorriso na sua face. E perguntou-me:
-Ó filho, 100 escudos chega?
-Chega sim, sr. Álvaro Jorge.
Abriu a gaveta da secretária, tirou uma nota de cem e passou-ma para a mão. Acrescentando:
- Olha filho. Não te importes com o fim do mês. Pagas quando puderes...
Remédio santo: o mau tempo passou e acho que até me pagou um café quando nos encontrámos no Coice...
oda
Certa noite de 1968 fui esperar Elis Regina ao aeroporto de Lisboa. A cantora vinha de Cannes, do Midem, onde obtivera um êxito estrondoso, e o PBX
enviou-me ao aeroporto para registar a chegada da pequena grande Elis a Lisboa. Entrevista não era o caso, pois o Carlos Cruz tinha-a entrevistado em directo, dias antes, de Cannes para o PBX. Era simplesmente recebê-la. Assim fiz, tudo combinado previamente.
De maneira que estava eu a trocar com Elis Regina algumas palavras de circunstância quando ao longe, mas aproximando-se, se começaram a ouvir os sons do surdo, do pandeiro, do tamborim, do tantã, da cuíca, depois do cavaquinho e do violão. Elis, saudosa do Brasil e maravilhada, virava-se para todos os lados para perceber de onde vinham aqueles sons familiares. E foi então que uma escola de samba entrou na sala de espera do aeroporto de Lisboa, tocando em honra da cantora. Elis acabou a cantar com eles, em directo no PBX. O quê, não me recordo. Talvez o Upa Neguinho, de Edu Lobo, proibida no RCP pela estupidez do Moita de Deus, aka Arbusto Divino, que julgava entender no título da canção uma alusão à UPA / União dos Povos de Angola. Mas que podia eu fazer se Elis Regina e a improvisada escola de samba, formada por jovens brasileiros que estudavam em Lisboa, tocassem e cantassem uma canção proibida?
Verdade que não me recordo da canção. Mas lembro-me bem que Elis Regina cantou e chorou.
E era assim, Kuando Os Rádios Eram Clubes.
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Quando Marcelo Caetano, em 1969, a \'vazia cadeira\' de Salazar multiplicou-se em movimentações de charme no sentido de dar a entender ao povo o seu animo de que algo estava a mudar. Na Ass. da Républica criou a Ala dos Liberais, uma espécie da dos Namorados aquando Aljubarrota. A PIDE passou a DGS. A agencia de noticias ANI virou ANOP. A CENSURA passou a EXAME PRÉVIO. Enfim mudaram as moscas. O RCP, também, foi contemplado. Um almoço com a Admnistração aconteceu no nosso Restaurante. Alguém, fonte segura, me contou um diálogo travado entre Marcelo Caetano [MC] e Botelho Moniz[BM]. Conto. Depois de elogiar os Serviços Informativos, MC. \"- PARECE-ME QUE O SR. TEM COMO CHEFE DE REDACÇÃO UM JOVEM UM POUCO... VERMELHO\" BM. \"- AH. O LUIS FILIPE COSTA? É DO BENFICA... MC. \"- NÃO...NÃO! BM. \"- ENTENDO V. EXA. MAS JÁ QUE ESTAMOS EM TERMOS FUTEBOLISTICOS POSSO GARANTIR-LHE. O RCP É COMO UM CAMPO DE FUTEBOL. ENQUANTO A BOLA NÃO SAIR DAS 4 LINHAS...O JOGO NÃO PÁRA.\" Marcelo Caetano entendeu. Só não percebeu que Thomas e Kaulza lhe estavam a fazer a folha. Não tiveram tempo. Apenas pergunto: \"- PORQUE SERÁ QUE O CHEFE DO GOVERNO NÃO VISITOU, TAMBEM, A R. RENASCENÇA?\" É que no RCP havia ,realmente outros \"benfiquistas\".
Kuando os rádios eram clubes houve um programa intitulado PBX: Carlos Cruz, Fialho Gouveia, José Nuno Martins, Rui Pedro, João Paulo Guerra, Alberto Moreno, Fernando Jorge, Luis Alcobia, José Ribeiro, Alfredo Alvela, Rui de Melo, Humberto Branco, Paulo "eletrónico" Morais, um luxo. Cá por mim, no PBX fazia tudo: cabine e reportagem. E foi como repórter que um dia saí à rua para fazer a reportagem de um inesperado dia de neve em Lisboa.
A neve dá alguma euforia às pessoas e toda a gente dizia e fazia coisas que habitualmente não faz, o que muito enriquecia a reportagem. Mas o máximo aconteceu no exterior da estação do Rossio, onde consegui convencer um agente da Polícia a declamar para o gravador a Balada da Neve, de Augusto Gil, da qual o cívico, com alguma ajuda que lhe dei, se recordava dos tempos da escola primária.
E era ver a cara das pessoas que entravam e saiam da estação, a observar um polícia, de microfone em riste a declamar em voz bem audível e em diferentes tons, repetindo pausadamente o mesmo verso do poema - "batem leve, levemente..." - sublinhado com gestos a condizer: "Batem leve, levemente...", "Batem leve, levemente...", etc.
E o pessoal a lembrar-se quão levemente eles batiam quando soava a hora do chanfalho.
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Certa tarde de 1966 estava eu com o meu sócio e amigo Zé Maria Videira, no Coice, acertando pormenores sobre as Corridas de Montes Claros qundo, o meu cérebro [ainda tinha] se acendeu tal lampada de Aladino: \"- Ó ZE MARIA. E SE FIZESSEMOS A TRANSMISSÃO, TAMBEM, DE HELICOPTERO?\" Não ouvi a resposta. Na altura chegara, ao Bar, o Botelho Moniz e o Videira atirou: \"- Ó JULIO. O PAULO FERNANDO...\" e descreveu a ideia. O JBM apenas disse: \"- ARRANGEM O APARELHO.\" No dia seguinte o Zé não só encontrou uma Empresa que alugava helicopteros aos agricultores como, ainda, lhes vendeu publicidade... E 10 dias depois, num solarengo fim-de-semana de Julho, o RCP transmitia, também, do AR as diatribes que, em TERRA, no asfalto de Monsanto, viaturas coloridas partilhavam. O reporter \"voador\" foi o Luiz Filipe Costa. Uma vez mais o RCP fora pioneiro.
Em Set. de 1962 entrou, porta dentro da Redacção o Director Alvaro Jorge. \"TENS SMOKING E PASSAPORTE?\" Disse k sim. \"- ENTÃO FAZ A MALA PORQUE DEPOS DE AMANHÃ VAIS PARA ESPANHA.\" E saiu deixando-me a falar sózinho. Tocou o telefone chamando-me para ir ao seu gabinete. Explicou -me k ia haver o 3o Festival de Aranda del Duero k,pela 1a. vez ia ser transmitido pela TVE e pelo RCP e k eu seria um dos apresentadores. Deu-me um envelope recheado de pesetas, um programa do Evento adiantando k alguém me iria contactar. Estava eu a analizar o Programa kuando me aparece o João Maria Tudela. \"- ENTÃO PAULINHO... OLÉ! \" \"- AH. É CONTIGO QUE VOU!\" Dois dias depois o encontro na Cinderela na Pr. Areeiro. A Ma.Espirito Santo, com o Carlos Ramos k não viajou. O Artur Garcia. A Marina Neves. No carro do Tudela, um Jaguar de fazer inveja a um sucateiro, lá abalámos. Connosco a Marina uma excelente companheira de \"route\". Viagem tiro e queda. Depois o Hotel em Aranda. Os espanhois já lá estavam. Rafael. Rosalia \"la rokera\" sempre em compita com Marisol. Salomé k, em 1969, viria a ganhar o Festival da Eurovisão. Dois italianos. Ela, já vedeta consagrada, que bebia conhaque de manhã ao raiar o dia. Habitando o mesmo reduto fácil foi criar amisades. Romances clandestinos e inacabados... Mais não digo para não ferir suscetibilidades. O espectáculo decorreu na Praça de Touros da localidade. Vencedora Rosalia com Romance em Andaluzia. Para Marina o Prémio de Intrepertação. Agora o regresso. Madrid, Hotel Whashington na Gran Via. Jantar no mundano Florida. Homemageados com flores e aplausos. Dia seguinte a viagem de retorno. Pelas 3 da manhã Almada para \'depositar\' a Marina. Cacilhas sem barcos. Solução?Alugar um .120 escudos. Na amurada, bebendo a maresia, mirávamos a Lisboa adormecida . Eramos jovens.
. KUANDO O RÁDIO FOI O CLUB...
. AUTOMOBILISMO DE...HELICO...